segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Quando o sono espalha

Dois passos e um, aquele toque de mãos.
Ficava a contemplar suas formas, beleza posta nos traços mais sutis.
Me perdia no encanto da silhueta, com seu antebraço na direção. 
E o sorriso de lado, meio travesso e marcado, fazia com que eu mordesse os lábios, com vontade de rir. 
Que forças nos aproximaram assim? Por qual razão? 
Era possível encontrar uma alma tão ligada à vida que me fizesse sentir o amor? 
O amor... 
Calmo, bruto, desejado. 
Depois de uma noite, bailado, quando corpos quaisquer não aguentariam mais... 
Mas a vontade era forte, e no dizer de seus lábios: “o sono espalha”! 
E espalhou! Pela cama e os lençóis.

PS. 
Covinhas (s.f)

É quando o universo cava no seu rosto um espaço a mais para você sorrir. É a alegria fazendo morada em você. É a tatuagem mais bonita do seu corpo (para mim, suas linhas de expressão). São dois pontos que eu faço questão de ligar com uma piada boba ou uma gracinha idiota. Não me culpe por querer te fazer sorrir, a culpa é das covinhas.

São as duas aspas que fazem, do seu sorriso, poesia.

João Doerderlein (@akapoeta), em O livro dos ressignificados.

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Borboletas imperiais

Temia não encontrar o fim da escada, mas ao mesmo tempo, voltar a ela parecia missão.
Rodopiando e rodopiando e rodopiando na névoa, girava no tempo, necessitando concluir o que não terminou.
Há um tempo teve a sensação de que caminhava pra trás. Mas ao retornar, sentiu uma leveza sem igual. 
Tinha sido feliz naquela paisagem e fez amigos e amores que o vento não derrubou.
Ele havia sido algo. Por muito tempo o sol. 
De todo o modo ela precisava retomar seu passado, era direito, e disso nem pensava em abrir mão. 
Mas na caixa de memórias o passado lhe mostrava tudo. Decidiu respeitar as contradições, reverenciar a alegria e aprender com o que não havia sido bom. 
Era possível apaixonar-se pelo passado. No entanto, ele já tinha ganhado o seu lugar. Adiante, tantas coisas se anunciavam... 
Casa, cama, colchão, luminária ao lado da cama; tudo pertinho de tudo, pra se poder tatear. 
Trabalho, colegas de trabalho, projetos, sorrisos, jovens cujas trajetórias estavam apenas a começar. 
Gentilezas. Carro para chegar ao trabalho, ver a paisagem ao longo da estrada, visitar a “irmãe” e o pai. 
Amigos redescobertos, sentidos, mãos que se estendiam ali. Quem sabe um novo amor? 
O coração acelerava. Batia forte pelas pequenas coisas. A beleza aparecia nas linhas de expressão, no corte das palavras ao emendar um assunto no outro, na lágrima caindo sem querer, nos fios grisalhos dos cabelos, no sorriso e no toque e em tudo o que não fosse óbvio demais. 
Parecia que o outubro seria pro resto da vida um mês endiabrado. 
Mas no outubro as flores surgiam, o cheiro do natal começava a dar seus primeiros sinais, e o brilho vivo do céu azul ia ficando mais penetrante. 
O sexo, rasgado, acelerado e forte, a deixava insegura. O que ele poderia revelar? 
Pareciam o lago e o alto mar. A brisa e o vento forte, a calmaria e a tempestade. O violino e a guitarra. Mas o abraço... e o braço e o suor escorrido no corpo e o olhar e o sorriso travesso e a vontade de mais produziam as borboletas imperiais. 
Então invadiam sentimentos mil. Saudade do algo recém-começado, medo de um futuro inesperado, de perder o controle, de sofrer. 
Tentava fugir da espiral da escada. Saía correndo, derrubava a parede de pedra buscando retornar à luz. 
E enfim, a caverna escura e fechada apontava sua saída antes entrada. Por trás, a estampa de um verde claro e vivo e um campo de girassóis.

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Tomas


Seus olhos eram intensos, assim como toda a ternura quando deitavas em mim.
Não tive a esperteza de olhá-lo como merecias, tal como fizestes durante todos esses anos...
Só consigo lembrar daquele olhar perdido do seu último dia, sem forças para sequer me reconhecer.
Mas espero, onde que quer que estejas, que perdoes a minha incapacidade.
Que tenhas se sentido amado, porque você de fato foi...
Já faz quase um ano que partistes e deixastes tanta saudade...
Daria tudo para tê-lo ao meu lado, com a cabeça em meu ombro e sua pegada suave em meu peito.
Daria tudo para sentir as suas cabeçadas e o calor do seu corpo pequeno nas noites de frio. Daria tudo para ter mais tempo contigo e retribuir todo o amor que você me deu...

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Macaquinho

Minha querida, hoje eu sonhei com você. Não sei por qual razão estávamos em casa e parecias vivinha. Papai chegou de repente, o que foi uma grande surpresa. Era tudo tão familiar...
E você ali correndo pela casa... Eu me perguntava: 
Como podia ser? E aquele homem, abrindo a porta da sala como se tivesse chegado de um dia exaustivo no trabalho...
Eu perguntava a ele:
- Por qual razão você está aqui? E por qual razão a minha preta está viva, correndo por todos os espaços?
Ele respondia:
- Preferi te dar um presente, deixar que ela fosse aos poucos, de forma bem natural... Esse remedinho vai deixá-la tranquila!
E ela corria pela casa, arrebatada pela presença de um macaquinho que entrou pela janela e se confundia com ela.
- Macaquinho, macaquinho! Ela gritava!
- Macaquinho, macaquinho!
E nós tentávamos alcançá-lo para que fosse devolvido ao ambiente, se libertasse.
Enfim ele pulou da sacada, se agarrou numa árvore e sumiu.
E você ficou ali, no meu colo, com aquele pêlo macio e pretinho, me dando tranquilidade e paz!
O homem, estava tão próximo e ao mesmo tempo distante. A indiferença se misturava com os arroubos de delicadeza, nada que eu não estivesse acostumada, ainda que toda a situação fosse incômoda, triste, revelando ainda mais que todo o amor que eu senti foi projetado sobre um personagem que talvez eu mesma tenha construído.
Ele falava de sua vida, de seus amores, como se tudo fosse muito normal!
Era o vazio, mas ainda assim você estava ali, no meu colo, com seu pêlo macio e pretinho, me dando tranquilidade e paz!
Já acordada eu pensava sobre o sonho. Talvez o macaquinho de pelúcia entregue com a mudança tenha me deixado verdadeiramente incomodada. Não pedi que ele viesse, que entrasse em meus dias. Ele precisava ser posto na sacada para que pulasse fora dali, ou com o vento ou com a força de meus braços.

Bianca

Como abrandar a dor dessa ausência que jamais irá passar? Como não sentir sua falta diante de tantos momentos excepcionais vividos ao teu lado?
Espero que você me perdoe por ter atropelado a natureza, fazendo-a partir.
Espero que você tenha sentido o tanto do amor que eu tinha por você.
Ele está aqui, no meu peito cheio de saudades. 
Ele está aqui, na memória onde flutuam as experiências mais felizes proporcionadas por ti.
Pule, corra, brinque, rebole, dê cabeçadas no infinito, porque agora o infinito é todo seu!!!